Hein?

Andei pensando em como seria o mundo se, lá pelas tantas do elo perdido, tivesse ocorrido uma mutação que deixasse a espécie humana completamente surda.

Pra começar pela biologia, não teríamos orelhas. Perderiam a função e desapareceriam com a evolução da espécie. Não sei como seria a boca, uma vez que foi feita para servir de via de ingestão de alimentos, nem a língua, auxiliar na deglutição, mas posso imaginar que a humanidade, sempre muito criativa, acabaria por descobrir formas prazerosas e pervertidas de usá-la, como faz hoje. Acho que a boca não mudaria muito, mas certamente não teríamos voz (pra que produzir som se ninguém é capaz de ouvir?). Então também não teríamos cordas vocais. Os braços seriam mais musculosos, resultado da atividade intensa de tanta gesticulação. Provavelmente a maioria não teria pelancas do adeus. Os caladões teriam os braços mirradinhos. É certo que a visão e o olfato seriam mais desenvolvidos, talvez tivéssemos olhões e narigões, e assim faríamos muito mais remela e meleca.

A comunicação, é claro, seria totalmente visual. Quem reclama do excesso de outdoors nas vias expressas não tem idéia do que seria circular por um mundo de surdos. Calculem como seria durante uma campanha eleitoral.

Imagino que a linguagem escrita seria completamente diferente, uma vez que a fonética não faria sentido algum. Provavelmente seria ideográfica, como a dos egípcios e dos povos do Extremo Oriente (teriam sido seus ancestrais surdos?).

O telefone... Bom, imagino um monte de leds, de cores diferentes, que piscariam em seqüências várias para a transmissão da mensagem. E um braço articulado pra dar cutucões, quando o telefone tocasse. Os ricos teriam sofisticados telefones com mãos programadas para a linguagem de sinais. Os celulares teriam mãozinhas minúsculas, que tombariam quando a bateria arriasse.

Rádio, nem pensar, obóveo.

A música seria outra coisa, é claro. Uma combinação de sons e formas harmônicas (ou não, se fosse música ruim). O brega seria cheio de rosa, dourado, amarelo e verde, tudo muito brilhante, com formas florais, tigrados e oncinhas. O rock teria cores e imagens ácidas e agressivas. Os darks e góticos fariam uma música em tons de cinza e preto. Cantigas de ninar em azulzinho. Músicas infantis teriam bolinhas e quadradinhos de cores vivas. Música popular vagabunda nas cores básicas. O clássico seria todo em tons pastel, a não ser que fosse Tchaikovsky, que de vez em quando jogaria uns laranjões e uns vermelhões-tambor. E o New Age seria branco branco branco. Os Tribalistas fariam uns arranjos de um amarelinho meio avermelhado, um roxo funéreo e uma cor-de-burro-quando-foge.

Um alienígena com capacidade auditiva que viesse à Terra ficaria apavorado: ao contrário do silêncio esperado de um mundo de surdos-mudos, seria um planeta terrivelmente barulhento. Ninguém teria a preocupação de produzir máquinas e motores mais silenciosos, ninguém teria o cuidado de não bater panelas na cozinha com gente dormindo em casa às 7 horas da manhã, ninguém se preocuparia em não bater portas para não incomodar etc. O alienígena, se estivesse pensando em dominar a Terra, voltaria na velocidade da luz para o silêncio absoluto do espaço.

Os animais domésticos seriam completamente doidos. Não sendo surdos, ouviriam aquela barulheira o dia inteiro, e enlouqueceriam. Os seres humanos achariam muito curioso o hábito dos cães de ficar abrindo repetidamente a boca junto às cercas pra nada. Ninguém que passasse pela calçada se assustaria, a não ser que os cães também soubessem cutucar.

Aliás, seríamos exímios cutucadores.

No cinema, jamais chegaríamos a O cantor de jazz. Woody Allen pareceria um biruta de posto de gasolina com overdose de Red Bull (é claro que teríamos um Woody Allen). Não teríamos dubladores, GRAÇAS AO BOM JESÚSI. O mala das Casas Bahia teria um cachê milionário, tal é seu repertório de gestos. Talvez fosse apresentador de talk show.

A indústria de desodorantes seria tremendamente desenvolvida. Gesticular muito dá cecê (ou seria sessê? Pouco importa. Num mundo de surdos, seria grafado com um sovaco cheio de mosquinhas).

Para calar a boca de alguém, bastaria amarrar (ou quebrar) seus braços.

Ana Maria Braga não faria "Hmmm, hmmm" a cada dentada na comida. Só passaria por baixo da mesa.

Não existiriam microfones no Big Brother. Aliás, não existiriam fones, macro ou micro.

Peidaríamos e arrotaríamos à vontade, ninguém ia ouvir.

E nunquinha na vida teríamos de suportar o abominável "Hein?"



 All About Eve às 18:35
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Mas bastou colocar o mail ali do ladim para aparecer um indignado querendo saber o que foi feito de Ouricuri, que aparentemente não está no Mundo Podre.

Ai, ai, ai. E eu aqui querendo exorcizar o passado. Não adianta. Sou perseguida por meu próprio baú. Tudo bem. Sem problemas. Não será por isso que vou me deitar num divã com um mercenário nas minhas costas doido pra que eu fale de minhas fantasias pervertidas com meu pai.

Esclarecerei o triste destino de Ouricuri, aquela pérola do Ceará que foi sem nunca ter sido, como pode constatar qualquer tarado que consulte o mapa e descubra uma Ouricuri impávida em Pernambuco.

Certa feita, a mimosa cidade sertaneja foi tomada por um fedor insuportável até mesmo aos narizes habituados aos futuns de seus habitantes. Descobriram-se obstruções várias em sua rede de esgotos, provocando a ascensão dos gases fétidos resultantes da atividade saprófita nos já putrefatos produtos da atividade intestinal ouricuriense. As várias diligências à autoridade pública de nada adiantaram. Nem o seqüestro do secretário de Obras, nem a troca de tiros, nem os cagalhões atirados à porta do prefeito.

Sugeri eu, do alto de minha sapiência e de minha frenética atividade encefálica, uma mobilização popular mais radical -- não, não faríamos passeata de preto na avenida Atlântica, até porque Ouricuri não tem praia. Simplesmente nos uniríamos para a maior cagada da história mundial, evacuando em uníssono, à hora e ao dia marcados, em nossas latrinas, após a ingestão e digestão de copiosas quantidades de uma feijoada completa. Era fundamental que puxássemos a descarga ENQUANTO cagássemos. Cria eu que a pressão de tal volume de merda nos tubos urbanos seria suficiente para eliminar o que quer que estivesse impedindo seu fluxo interno, abrindo caminho para fezes e urinas futuras.

Preparamo-nos, pois, devidamente acocorados, os alto-falantes berrando, "Ainda não! Segurem os cus! Vai começar a contagem regressiva! Trinta segundos para o lançamento!", um ou outro deixando escapar um fiozinho de merda, tal era nossa ansiedade.

Ao cagarmos todos juntos, um-dois-três-e-já nos alto-falantes, em lugar do desimpedimento fecal, deu-se uma explosão catastrófica. Toda Ouricuri foi soterrada, eu diria melhor, somerdada, e seus diletos filhos dizimados pela intoxicação gasosa-escatológica-atmosférica.

Escapei graças a Paulo Coelho, o jegue, animal sensível a apelos mercadológicos e vibrações diversas, que sentiu um tremelir no chão, atrelou-se sozinho a El Carretón (os que não conhecem este revolucionário veículo, cliquem aqui) e me arrancou do trono antes que eu tivesse a oportunidade de usar o papel higiênico, para que partíssemos lépidos, eu ainda de calçolas arriadas, a tempo de evitar destino semelhante.

Desde então, eu e Paulo Coelho, o jumento, erramos sem parar por este Mundo Podre.



 All About Eve às 20:27
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Mas o que é que está acontecendo que estão aí disputando para lavar minhas calçolas? Gentem taradas...

 All About Eve às 22:58
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 All About Eve às 20:20
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Pronto, caguei, queridos leitores.

E já que estou meio maldosinha hoje, dêem uma olhada no poema "Diatribes", do doido de pedra do Cruz e Sousa, publicado no Prosa Caótica, e vejam se não lembra muiiiiiiito um certo blogueiro zoilo que temos por aqui.

Em tempo: zoilo designa o crítico literário invejoso e maledicente.



 All About Eve às 13:47
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Estou cagando.

 All About Eve às 13:41
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Peraí que eu vou cagar.

 All About Eve às 13:37
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Vi, entre os comentários do post anterior, um nome que me "tocou um sino", para usar um vício de tradutor de cais do porto. "Maricleide de Jesus". Eu sabia que conhecia o nome de algum lugar, não me lembrava de onde; fui conferir.

Aaaaaaaaaaaaaaaah, mas é a grande vencedora do Grande Concurso de Piores Contos do grande Prosa! E niqui fucei, vi uma safadezazinha. A dona Maricleide, esperrrrrtinha, afirma ter visto seu nome na lista de Outros Mundos deste Mundo Podre. Não estava.

Me lembrou uma "secretária" (eufemismo de classe média metida a politicamente correta) que sempre que queria pleitear aumento, vinha com uma conversa mole: "Ih, dona Labáti, o pão omentô 3 centavo... Magina, 4 filho, 7 neto, tudo comeno pão", ou "Ih, dona Labáti, omentáro u arrôs di novo. Magina, 5 filho, 9 neto, tudo comeno arrôs", e por aí, num crescendo de descendentes, esperando me sensibilizar.

Bom, dona Maricleide de Jesus, eu me esbodeguei tanto de rir com seu blog que não pude deixar de colocá-la entre meus diletos mundos. Imperdível. Desta vez, o verde rendeu maduro. Arranje um tempinho entre uma faxina e outra para contar mais de sua vida, OK?

E me diga uma coisa: a faxina tá quanto? Aceita pré-datado?



 All About Eve às 21:58
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Não agüento mais essa coqueluche de chefs. Há não muito tempo, o sujeito tinha que ralar muita noz-moscada na vida para merecer o epíteto. Hoje, qualquer mané que faça um curso de culinária no Senac e um estágio num restaurante meio conhecido mete chef na frente do nome, depois de abrir casa própria com numerário paterno (e qualquer mané que saiba a diferença entre um Santa Carolina e um Cantina de São Roque é enólogo).

A cariocada descoladinha que, ao contrário do resto do país, não sabe o que é boa mesa, adora. Paga quantias indecentes por sarobas incomíveis, os gourmants de filé mignon de cavalo (há um francês nas montanhas fluminenses, com uma fama dos diabos e caráter duvidoso, que "esquece" de pagar aos fornecedores e compra filé de cavalo para servir como mignon de boi, e adivinhem? Nenhum de seus clientes "gourmants" percebe a diferença). Basta a assinatura de um "chef", um preço cabeludo e uma decoração rústico-chique meio fake. O resto é delírio:

Ooooooooooooooooh, o steak au poivre com puré (biquinho na pronúncia francesa, faz favor) de pupunha do Fulanô é maravilhoso (traduzindo: um bife muito do sem-vergonha carregado na pimenta pra disfarçar o gosto de geladeira acompanhado de uma paçoca de palmito e um delicado raminho de salsinha no canto do prato e o ar de empáfia do garçom, que a apresentação é fundamental. Preço, 46 por cabeça.

Ooooooooooooooooh, a insalatta di faraona do Beltranelli é sensacional (o que se traduz por umas folhas de alface rasgadas, sempre rasgadas, olha a Danuza!, mas sabe-se lá por que mãos, e agrião e rúcula (criaram manias de rúcula também, que no meu tempo de quintais e bananeiras era mato e ninguém comia) com uma ou duas lagartinhas e uma meia dúzia de lascas submicroscópicas duma galinha d'angola morrinhenta, com um delicado raminho de hortelã no canto do prato e o ar de empáfia da garçonete, que a apresentação é fundamental. Preço, 18 por cabeça.

Ooooooooooooooooh, o fetuccini "aos quatro" fromaggi do Sicranô é de comer de joelhos (um macarrão Piraquê flatogênico nadando numa sopa de emental Polengui de copo, requeijão de copo, cheddar de copo e parmesão Boa Nata, servido morno, MORNO, aquela coisa amarelo-sezão, com um delicado raminho de manjericão no canto do prato e o ar de empáfia do garçom que não por acaso é o dono, que a apresentação é fundamental. Preço: 28 por cabeça.

Tem um Fulanô que abriu casa perto daqui. A gente entra numa espécie de caverna do ego (dele), tal é a quantidade de fotos do "chef" encarando câmeras em matérias de publicações as mais insólitas, que ele naturalmente fez questão de cavar, uns Diários de Ouricuri da vida. E o "chef" nem é bonitim, muito antes pelo contrário. Em todas as paredes, em cada canto, a cara de filhote de cruz-credo do Fulanô com os ôio na gente o tempo todo. Opressivo. A comida? Bom, ele se ferrou com os pratos chiquinhos e deu de fazer prato comercial a 10 reais pra conseguir pagar o aluguel, não por falta de marketing pessoal, mas porque a concorrência aqui é feroz, tem uns 75 "chefs" por metro quadrado. Uma carne assada sem gosto de nada nada nada, nem de carne, com duas batatas cozidas servidas com casca, muito bonitinhas e redondinhas partidas ao meio ocupando os cantos do prato, um arroz com uns dois dias de panela, um molho de limão (por cima do arroz, meu Deus), e o indefectível raminho de estragão no canto do prato, que a apresentação é fundamental.

Com 5 reáu como uma carne assada dos deuses com batatas coradas de verdade, e não de vergonha, numa birosca verdadeiramente rústica perto do ponto final do ônibus do meu matão aqui.

Mas a dona da birosca num é chef, é? E cinco reáu num é preço.

Burros.



 All About Eve às 19:23
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MARIA VAI COM AS OUTRAS

Peguei no Sopa (de mim), que pegou na Fal que pegou na Mel, que pegou na Dani, que pegou no Delfin:

Instruções:
1. Pegue o livro mais próximo de você;
2. Abra o livro na página 23;
3. Ache a quinta frase;
4. Poste o texto em seu blog junto com estas instruções.


Bom, o meu deu o seguinte:

Mis numerosas actividades me dejan poco tiempo libre.

Do Diccionario Señas de espanhol, num exemplo para o verbete actividad. (Bom, era o livro que estava mais perto. Paciência. Mas inté que cabeu.)

 All About Eve às 21:45
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E parece que lá vai a cariocada zona-sulística em "passeata" no domingo às 10 horas da manhã. Vestindo preto, luto pelo Rio, que coisinha fashion. Sabem onde? Adivinhem.

Na praia.

No domingo, quando não tem trânsito na orla porque a Prefeitura fecha suas ruas à passagem dos carros, transformando as Atlânticas da vida em área de lazer. Parece piada.

Isso não é passeata, é passeio, pelamordedeus. Manifestação tem que incomodar, tem que perturbar, tem que representar uma ameaça. Nenhuma mobilização pode ter resultado se não causar algum prejuízo, financeiro, político ou moral. Enquanto os passeantes gastam seus solados da Mr. Cat numa pista livre, em paz com seus DVDs, suas TVs a cabo e seus filhos no curso de inglês, a rosinha podre e o cancro do marido poderão muito bem estar em Campos, terra que seduz, de dia falta água, de noite falta luz, vendo as carinhas indignadinhas dos "manifestantes" no Jornal da Globo e achando tudo muito engraçadinho. Por que não levam suas roupinhas pretas da Gap ao Palácio do Governo? Acampem na Pinheiro Machado, não deixem a mocréia trabalhar, interrompam o trânsito, gritem, soneguem impostos estaduais (o IPVA, por exemplo, que é uma fortuna indecente), invadam a Assembléia Legislativa com suas exigências, batam tambores nas janelas daquela família de moleques a noite toda para que ninguém durma,

INCOMODEM. PERTURBEM A ORDEM. SUBVERTAM. DÊEM A CARA A TAPA.

Deixem de ser fúteis e babacas uma vezinha só que seja. Não aumentem ainda mais a vergonha que tenho de ser carioca.

Tenho pena do Rio. Putaquipariu.



 All About Eve às 14:33
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Eu já quis muitas coisas na vida. Eu já quis ser Cora Rónai, já quis ser a Xuxa, já quis ser eu, já não quis ser e não fui. Eu já quis ter um propósito, mesmo que fosse comprado. Já quis que a África invadisse em massa a Europa, e que todos os soropositivos do Quênia dançassem no Parlamento Europeu depois de arrancar os olhos de seus digníssimos membros. Já quis que Israel fosse engolida pela terra que tanto cobiça. Já quis que todos os oprimidos do mundo se sublevassem e fizessem ao menos uma greve geral global para que as dondocas e dondocos que não vivem sem escravos tivessem de limpar a merda de suas próprias latrinas pelo menos uma vez na vida. Eu já quis ver o último americano enforcado nas tripas do último inglês. Já quis esmagar a cabeça do bostinha de classe média que faz passeatas inúteis na praia e se queixa da violência do Rio depois de bater uma carreira de pó e de ter "esquecido" de pagar o salário miserável da empregada. Eu já quis deixar de ser panfletária. Já quis deixar de me indignar. Já quis deixar de ser piegas. Já quis deixar de usar clichês. Já quis acreditar num deus, num diabo, em alguém. Já quis ser feliz.

Mas só o que quero agora é ganhar uns 30 milhões na Mega Sena para mandar um foda-se a todos e passar o resto dos meus dias vivendo alienada e nababescamente enquanto o mundo apodrece em volta de mim.

Convenhamos que esse objetivo é bem mais fácil.



 All About Eve às 17:22
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 All About Eve às 21:36
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Um amigo da minha irmã, que chamarei de Sujeito, foi parado pela Polícia Rodoviária na Rio-Santos. Olha documento, revira documento, fuça daqui, fuça dali, acende farol, pisca-alerta, fuça fuça e nada. Absolutamente nada de errado. Mas o policial estava a fim de achacar, e resolveu implicar com a placa. "A placa está muito suja, não consigo ver nada." O Sujeito desce do carro. "Suja?" "Imunda, não vejo nada." Não estava, era nova. O Sujeito pegou uma flanela no carro e "limpou" a placa. "E agora?", perguntou. "Continua suja, não estou vendo nada." O Sujeito pegou uma água mineral no carro, despejou na placa, esfregou com a flanela. "Agora tá limpa?" "Não, agora piorou de vez", respondeu o policial. O Sujeito perdeu a paciência. Colocou a mão no ombro do policial e perguntou: "Meu amigo, será que uma cervejinha lava?" "Ah", respondeu o policial, feliz porque a anta finalmente entendera a situação, "lava sim, cervejinha lava TUDO!" O Sujeito abriu a mala do carro, pegou uma lata de cerveja da caixa que levava, abriu a lata, despejou o conteúdo na placa, colocou a lata na mão do policial, agradeceu e foi embora.

Desde que ouvi essa história, ando com uma lata de cerveja no carro para o caso de a polícia tentar me achacar e eu poder fazer o mesmo, mas isso nunca acontece. Nas poucas vezes em que sou parada, o policial não me pede NADA (ele confia na minha cara de boa moça), e se limita a me dispensar depois de me fazer uma pergunta absolutamente estúpida, à qual dou uma resposta educada mas sempre penso em responder outra coisa:

O POLICIAL PERGUNTA: "Os documento tão tudo certinho?"
O QUE EU RESPONDO: "Claro, tudo certinho. Quer ver? (ele não quer)
O QUE PENSO EM RESPONDER: "Não. Eu não tenho carteira, esse carro é roubado e minha identidade é falsa", ou "Tudo certinho, o único problema é que não estão aqui", ou "Ué, precisa de documento, é? Que esquisito!"

O POLICIAL PERGUNTA: "O extintor tá carregado?"
O QUE EU RESPONDO: "Claro, eu reviso todo ano. Quer ver?" (ele não quer)
O QUE PENSO EM RESPONDER: "Extintor de quê? De burrice?", ou "O extintor não, mas o lança-chamas tá uma beleza", ou "Não sei. Há tanto tempo que não tiro dali que ele grudou no banco e não quer sair."

O POLICIAL PERGUNTA: "Tem alguma coisa na mala?"
O QUE EU RESPONDO: "Nada demais, só estepe, ferramenta, essas coisas. Quer ver?" (ele não quer)
O QUE PENSO EM RESPONDER: "Tem um cadáver de 70 quilos que vou desovar no primeiro matagal, e vê se me libera logo que a coisa já tá fedendo", ou "Tem 20 quilos de cocaína que eu tô levando pra galera do Dona Marta. Quer bater uma comigo agora pra ver como é da boa?", ou "Cinco Uzis, 20 Glocks, 3 granadas de mão, 1 bazuca e 1 míssil terra-ar. Por falar nisso, o senhor tem munição de 38 pra me arranjar, que a minha acabou?"



 All About Eve às 15:58
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Muda-se de endereço, muda-se de sistema, muda-se até o nome do blog. Mas dá no mesmo.

Já sei por que a Terra é redonda e gira gira gira. Pra voltar sempre à mesma merda.



 All About Eve às 00:12
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 All About Eve às 22:36
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Na secretária eletrônica encontro um recado do meu banco, uma voz de andróide falando paulistês. Diz preu ligar para um 0300. "É assunto de seu interesse."

Você ligou?

Nem eu.

Criei um pânico medonho de banco depois do não-sei-quésimo telefonema avisando que o especial tinha estourado e desde a visão de meu extrato on-line parecendo vítima de bala dum-dum, todo esburacado e vermelho. Não atendo mais ao telefone, não abro a correspondência (os extratos mensais se acumulam aqui do jeito que chegaram, lacrados e sem uma digital minha), não tenho idéia de quanto devo ao cartão de crédito (programei um rotativo mensal de 10% e, considerando que me arrancam 12%, minha dívida, a essa altura, deve girar em torno do PIB do Suriname) e sempre que tenho de usar o caixa eletrônico faço tudo desabalada, com medo de que a máquina exija meu dinheiro aos gritos.

Acho que vou virar mendiga.



 All About Eve às 23:39
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Estava eu no supermercado, aguardando na fila do caixa para passar minha cesta básica, quando testemunho o seguinte diálogo entre a caixa atarracada, a empacotadora rolha-de-poço e a madame com cara de fuinha que passava os últimos itens do último de seu quinto carrinho de compras, cheio de iogurte, ricota, óleo de girassol, açúcar light e leite desnatado (a fuinha tem medo de morrer do coração):

CAIXA: [lendo o nome da fuinha no cartão de crédito] Fulana Portugal... A senhora é de Portugal?

FUINHA: Não, sou daqui mesmo. É só o nome.

CAIXA: Nunca fui nessa cidade não. Nem sei onde fica. Só conheço o Rio.

EMPACOTADORA: Dizem que é bonita.

FUINHA: É lindo. Deslumbrante.

EU: [invejinha rápida]

EMPACOTADORA: Tem que ir de avião, né?

FUINHA: Ah, é sim. De avião. É muito longe.

CAIXA: Ih, de avião eu não vou. E se cai? Vou ficar que nem aquele homem que caiu no maior mato, e quando chegou os bombeiro ele já tava morto.

FUINHA: Mas avião é seguro. A maioria não cai assim não.

CAIXA: Mas a menoria cai. E se eu estiver na menoria? Eu, hein.

EMPACOTADORA: Então você não vai em Portugal.

FUINHA: Mas dá para ir de navio também.

CAIXA: Ah, de navio só se for o Titanic. Já pensou, eu lá, na varandona, olhando o mar, e vem o Leonardicaprio... Uuuuuiii...

EMPACOTADORA: Mas o Titanic afundou, sua pateta!

CAIXA: Ah, minha filha, com o Leonardicaprio eu afundo até na privada da rodoviária!



 All About Eve às 23:07
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A polícia matou o Lulu da Rocinha.

Só para facilitar as coisas para a galera do Vidigal.



 All About Eve às 23:36
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COMUNICADO IMPORTANTE:

Só respondo a perguntas na presença de meu advogado.



 All About Eve às 22:54
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Ólabauti é uma jornalista baba-ovada, sensacional e modesta que anda com manias de cocô.



 

 

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